domingo, 5 de junho de 2011

Democracia e corrupção


Por João Baptista Herkenhoff
A quebra das artimanhas da corrupção, a superação dos vícios que desnaturam os fundamentos da Democracia.
Naqueles momentos, que infelizmente são cíclicos na vida brasileira, em que grandes escândalos administrativos e financeiros ocupam o noticiário, seja o noticiário nacional, sejam os noticiários locais, podemos ser tentados a colocar em cheque a validade do sistema democrático.
No entanto, os desvios de conduta, ao que sinto, não existem como consequência da Democracia. O sistema democrático, especialmente a liberdade de imprensa, apenas torna públicos os atos desonestos.

Impõe-se fazer um balanço geral de nosso modelo democrático. Há vícios que estão na própria raiz do sistema. O debate não pode ficar circunscrito aos políticos. A sociedade civil organizada tem de exigir participação efetiva na discussão e presença eficaz nas estruturas de poder.
A quebra das artimanhas da corrupção, a superação dos vícios que desnaturam os fundamentos da Democracia, tudo isso só será alcançado através de intensa mobilização popular.
Num grande esforço nacional pela construção da Democracia creio que um papel relevante cabe à Universidade, vista como instituição que deve estar a serviço do povo. É imperativo que a instância universitária, em comunhão com a sociedade, discuta e proponha um projeto para o país.
Ao discutir o Brasil, a Universidade, ela própria, também tem de ser discutida. Alterada em algumas de suas bases, a Universidade ficou mais bem equipada para cumprir seu papel político e social? Creio que não.
Nas universidades em geral, criaram-se Centros e Departamentos. Extinguiram-se as Faculdades. As Faculdades tinham alma. Os Departamentos são etéreos.
O curso seriado foi substituído pelo sistema de créditos. Destruiu-se aquele coleguismo que se forjava na convivência, por vários anos, dos integrantes de uma turma. A turma tornava-se uma pessoa moral, o que repercutia, favoravelmente, tanto na personalidade do jovem, quanto na atmosfera social onde essa “pessoa moral” marcava presença.
Acabou-se com a cátedra. É certo que muitos catedráticos, depois da conquista do título, supunham estar dispensados das tarefas didáticas. Penso que esse desvio ético (supor que a cátedra fosse a láurea da preguiça) podia ser corrigido, pela via acadêmica (corte de ponto do professor catedrático faltoso, da mesma forma que se corta o ponto do modesto funcionário da limpeza faltoso). Não vejo que, para coibir o abuso, o caminho devesse ter sido a supressão da cátedra.
Discutir a Universidade e o ensino em geral, discutir a saúde pública, discutir o modelo econômico, discutir a estrutura partidária, discutir o sistema eleitoral, discutir o poder do interesse privado e do dinheiro nas eleições, discutir a Justiça, discutir a intervenção cirúrgica no nepotismo e no afilhadismo, discutir os tribunais de contas que devem prevenir a corrupção para terem o direito de sobreviver, corrigir não as consequências dos males, mas os males na sua origem e na sua força de contaminar o conjunto social – este é o grande desafio.
João Baptista Herkenhoff, 74 anos, Professor pesquisador da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES) e conferencista. Autor do livro Dilemas de um juiz – a aventura obrigatória. (GZ Editora, Rio de Janeiro). E-mail:  jbherkenhoff@uol.com.br Homepage: www.jbherkenhoff.com.br
Colunista do portal Revista Central

As opiniões aqui expressas não necessariamente coincidem com a da Revista Central.

Fazemos parte da rede do Portal Revista Central - informação em tempo real com credibilidade. acesse: www.revistacentral.com.br

Related Posts:

  • O chororô dos meritíssimos Por Ruth de AquinoEles querem manter o privilégio das férias mais longas. Onde vai parar a guerra às castas no Brasil?Estou com pena dos juízes. Seus 60 dias de férias anuais podem ser reduzidos à metade. É uma maldade com o… Read More
  • Se você não é da “family”, que se dane! Por Carlos CarvalhoDizem que no Butão, o rei sempre se curva na presença de professores.Leio nos jornais, que os juízes poderão entrar em greve. Reivindicam aumento salarial que, se conseguido, aumentará um mísero salário de… Read More
  • Corrupção tem vida? Por Luiz Domingos Luna A Corrupção pela sua própria definição é um ser que em tese deveria ser um ser sem vida. Na fumaça do poder temporal da existência, o tempo se afunila no espaço num carrossel Constante de giros, c… Read More
  • Democracia ou ditadura? Por Getúlio Freitas Jesus Cristo em uma de suas parábolas enfatizou que conhecemos uma arvore pelos seus frutos.Estava eu refletindo sobre a situação política de Ibaretama e me pego a ver o mesmo cenário repetidamente de a… Read More
  • Licitação é porta de entrada para desviosNo Ceará, pelo menos cinco prefeitos estão afastados dos mandatos por envolvimento em crimes contra o erário. A Justiça começa a reagir a corrupção. Oito dos prefeitos cearenses eleitos no último pleito municipal estão afas… Read More

0 Comentários: