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domingo, 14 de novembro de 2010

Caminhada pede vida digna no semiárido em Senador Pompeu

Religião, socialização e cultura memorizam o martírio sertanejo na luta pela sobrevivência no interior do Ceará 

O ritual em homenagem aos flagelados do campo de concentração da seca de 1932 se repetirá pelo 28º ano no sertão de Senador Pompeu. Ainda na madrugada uma multidão de fiéis se concentrará diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores e dali, aos primeiros raios do sol, parte para o cemitério da barragem do Patu, açude que abastece esta cidade. Após 5km de caminhada, devotos, admiradores e curiosos vão assistir a celebração eucarística em homenagem às "Almas do Povo". Em seguida, além do campo santo, os casarões da barragem receberão a visita dos romeiros.

Ano passado dezenas de caravanas saíram de distritos e povoados, juntaram-se aos caminheiros da sede de Senador Pompeu e de outros Municípios. Alguns, descalços, agradeciam as graças alcançadas, a maioria pela fé e devoção às Almas da Barragem. Outros, curiosos em busca de informações sobre o fato histórico do Campo de Concentração da Seca de 1932 e a devoção, a fé da comunidade nas Santas Almas. Este ano, os passos serão praticamente os mesmos. Diferença apenas no número de romeiros, que desta vez deverá ser maior.

Este ano, por meio do Fórum Popular pela Preservação do Patrimônio Cultural e Ambiental de Senador Pompeu, a equipe de mobilização da Caminhada propõe uma reflexão sobre a questão da convivência com o semiárido. O advogado Valdecy Alves é um dos articuladores. Ele enfatiza a preservação do bioma Caatinga e também chama atenção para a preservação do patrimônio cultural material e imaterial, no caso o sítio histórico Casarões da Barragem e a própria Caminhada da Seca. "Senador Pompeu é o único Município do Ceará que matem viva a memória dos campos de concentração de flagelados da seca, tanto no aspecto material como imaterial", completa.

Um dos responsáveis pelo resgate do lastimável episódio histórico de 1932, o promotor cultural, Fran Paulo da Silva, avalia a importância da "Caminhada da Seca" no sentido de manter viva a memória histórica. "Para não esquecermos o sofrimento de tantas pessoas. Para que possamos garantir que nunca mais fato semelhante ao campo de concentração de flagelados venha acontecer. É importante também pela fé, pela devoção que a comunidade tem para com as almas da barragem que obram milagres. Tem um ditado que diz: santo de casa não obra milagre. No caso de Senador Pompeu, as santas almas da barragem obram milagre, sim. E é um caso peculiar em que o santo é coletivo, o povo virou santo, o santo milagreiro, são as almas do povo que intercedem pelo povo", ressalta.

Programação

Hoje, pela manhã, haverá audiência pública na Câmara de Vereadores. O Fórum Popular pretende discutir com os representantes do povo sobre a preservação do acervo material do sítio histórico da barragem do Patu. À noite a atenção do público estará voltada para a peça "Campo de Concentração de 32". A encenação, retratando o momento histórico, será no Centro Pastoral da Igreja Matriz. O espetáculo deve começar às 20 horas. Mais de 25 atores da Companhia Engenheiros da Arte e do grupo Arautos do Bonfim vão reviver o flagelo marcado pela fome, a cólera e milhares de vítimas, sepultadas em covas rasas, ao lado da barragem.

O cemitério, patrimônio material adicionado ao sítio histórico, no meio do mato, é tido como campo santo visitado por romeiros o ano inteiro. Foi a mortandade cruel dessa gente que ficou no imaginário popular, sendo transmitido oralmente de geração em geração. Não tardou as almas obrarem milagres, tornando-se um santo coletivo por vontade do povo: as santas almas da barragem. Tal crença albergou-se na fé, na religiosidade, tornando-se patrimônio imaterial do Nordeste. Já os velhos casarões são testemunhas vivas de todo o drama e local onde foram hospedados e de onde administravam o Campo de Concentração do Patu.

A Caminhada da Seca é promovida pela Paróquia de Nossa Senhora das Dores em parceria com o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antônio Conselheiro (CDDH) Antonio Instituto Casarão e diversas organizações não governamentais deste Município.

Juntas, integram o Fórum Popular pela Preservação do Patrimônio Cultural e Ambiental de Senador Pompeu.

Público

6 mil pessoas é o número do público esperado para a 28ª edição da Caminhada da Seca em Senador Pompeu. Os fiéis e curiosos vêm de todos os Municípios da região e do Estado do Ceará

MAIS INFORMAÇÕES
Paróquia de Nossa Senhora das Dores - (88) 9928.2592
CDDH Antônio Conselheiro (88) 3449.0126

Revista Central e Diário do Nordeste

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