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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Esporte perde mais uma partida para a violência


Por Cristiano Sousa
Esporte educa? Esporte afasta das drogas? Esporte dissemina uma cultura de paz? 

A morte de Jean Silva, Secretário de Participação Popular, Esporte e Juventude de Quixadá – SEPPEJ - nos impõe a imperosa necessidade de refletirmos sobre o real papel e o real objetivo que o esporte tem em nossa sociedade. Jean, em sua simplicidade não detinha as habilidades técnicas para ser um grande praticante de esportes, contudo, tinha no coração o desejo de fazer o bem e a percepção que o esporte era o meio pelo qual poderia contribuir para a melhoria da vida dos cidadãos quixadaenses. Contudo, teve sua vida ceifada de forma brutal, sem a menor condição de defesa, num momento onde conseguia consolidar ações da SEPPEJE, como a inauguração das tabelas de basquete do Ginásio Coberto Governador Gonzaga Mota, um sonho antigo da comunidade quixadaense.


Diante de tal tragédia devemos como nunca parar para pensar sobre as perguntas com as quais inicio este texto, pois, diferentemente do que pensa o senso comum, o esporte pode educar, pode afastar das drogas, pode fomentar a paz, pode formar cidadãos, porém, este mesmo esporte pode formar pessoas individualistas, pode estimular a violência, pode fomentar o consumo de substâncias ilícitas, pode formar marginais. Trata-se realmente de atentarmos para o que diz o sociólogo francês Pierre Parlebas:

“O desporto não possui nenhuma virtude mágica. Ele não é em si mesmo nem socializante nem anti-socializante. É conforme: ele é aquilo que se fizer dele. A prática do judô ou do rúgbi pode formar tanto patifes como homens perfeitos, preocupados com o fair play.” 

Fica a convicção de que Jean Silva, na sua trajetória frente à SEPPEJ pensou o desporto enquanto ferramenta de paz e educação, porém, a violência sofrida por ele deve remeter Técnicos de Esportes, Professores de Educação Física, Árbitros, Atletas e Torcedores s a uma série de questionamentos sobre o real sentido e objetivo da prática esportiva para o ser humano, onde aqui elenco algumas reflexões:

- Será que o modelo desportivo desenvolvido em Quixadá, onde se busca a vitória a qualquer custo não está formando pessoas individualistas?

- Será que a hipervalorização daqueles que tem o privilégio das habilidades técnicas em detrimento dos menos habilidosos não estará gerando um fator de forte exclusão social dentro das aulas de Educação Física e Esportes?

- Será que a valorização apenas de atletas e equipes campeãs não está levando os praticantes de esportes a se tornarem pessoas extremamente competitivas?

- Será que o modelo desportivo desenvolvido especialmente para crianças, onde se busca desde muito cedo a participação deles nas competições esportivas formais não está roubando a infância e o direito de brincar que sabemos ser fundamentais para o sadio desenvolvimento do ser humano?

- O que devemos fazer com aqueles menos habilidosos (que são a grande maioria em nosso país)? Quem deve se preocupar com os atletas e equipes que não foram campeões? Será que realmente o que interessa é somente ser vitorioso e campeão? Será que os profissionais de Educação Física e Esportes estão realmente preocupados com a educação através do esporte, ou, estão mais preocupados em ganhar títulos para serem reconhecidos pela comunidade como grandes profissionais?

É chegada a hora de realmente refletir sobre o papel que o esporte realmente tem em nossa sociedade, buscando transformar em ações práticas nos campos, quadras, ginásios, pistas e piscinas o que a toda hora falamos: Esporte Educa! Esporte Salva! Esporte forma cidadãos! Esporte afasta das drogas! Todas essas citações são falácias quando os professores e técnicos não refletem sobre sua prática pedagógica e não aplicam isso nas suas aulas e treinos cotidianos. 
É imprescindível uma transformação profunda dos fins e objetivos do esporte em Quixadá para que possamos evitar tragédias como aconteceu com Jean Silva, mesmo sabendo que o esporte, isoladamente, não pode educar e transformar uma sociedade, porém, este esporte pode dar uma contribuição gigantesca para a formação humana quando dinamizado de forma coerente, buscando o desenvolvimento integral de crianças, jovens e adultos praticantes.

Jean Silva se foi, mas deixa o exemplo de amor ao esporte e a missão de continuarmos com a luta de transformar a realidade do município de Quixadá através das práticas desportivas. 

Na certeza de estar na presença de Deus fique certo de que o esporte perdeu esta partida para a violência, mas, a guerra ainda está longe de ser finalizada e seu exemplo nutrirá para sempre o coração daqueles que não permitirão que o mal triunfe sobre o bem, pois, a luta para levar o esporte a todos os quixadaenses permanecerá, principalmente para aqueles menos favorecidos economicamente, pois, esta era sua bandeira amigo Jean Silva.

Definitivamente, não podemos permitir que o esporte perca a guerra para a violência!
Cristiano Sousa
Professor Universitário de Educação Fisica da FCRS
Colaborou com a Coluna Opinião do leitor.

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