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domingo, 9 de outubro de 2011

Cantor e compositor Fausto Nilo nos concede entrevista


Por Fernando Ivo
A realidade atual com relação ao mundo da canção popular é muito diferente.
"Já perdemos muitas coisas aqui por desfiguração, destruição, demolição e reformas de edifícios importantes que não poderiam ter sido autorizadas. Não estou aqui para culpar os gestores de Quixeramobim por tudo que aconteceu, pois isso acontece em todo o estado, chegará um dia em que a gente vai cuidar disso embora eu comece a pensar que está meio tarde."
Em uma visita a sua cidade natal, o cantor, compositor e arquiteto Fausto Nilo Costa Júnior, falou sobre música, patrimônio histórico e sua infância. Super atencioso e preocupado em atender bem a quem o procurava, Fausto Nilo foi o primeiro a ser entrevistado pelo blog Sertão É Notícia / RC.

Confira entrevista completa:
RC / O SERTÃO É NOTÍCIA – Como você analisa o atual cenário musical do País, especialmente o do Ceará?
FAUSTO NILO- A realidade atual com relação ao mundo da canção popular é muito diferente da minha época, hoje você tem a música instrumental, a de entretenimento do público de massa, mas naturalmente comparando ao meu inicio que completa no próximo ano 40 anos da minha primeira gravação fonográfica, um trabalho que tenho mantido todo ano, desde esse inicio observamos muitas diferenças devido ao avanço tecnológico como a comunicação, a troca de informação facilitando o trabalho com pessoas a distancia podendo compartilhar criativamente um trabalho. Eu acho que é natural que se cumpra uma coisa inevitável onde nós os mais experientes estaremos completando sua experiência e os mais novos inaugurando novas experiências. Eu já acho muito tempo ter ficado quatro décadas produzindo letras de canções de maneira interrupta, isso nunca foi imaginado por mim. Hoje tem muita gente nova chegando e produzindo algo natural, mas até o público muda e “tá” cheio de gente nova chegando. Hoje tem algumas dificuldades e facilidades maiores do que na minha época. Observamos a produção maciça nos dias atuais, são mais de trezentas cantoras lançadas nestes dias, na minha época contávamos nos dedos as cantoras existentes.
RC / O SERTÃO É NOTÍCIA - Diferentemente do tradicional formato do forró pé de serra, do xote e do baião, até mesmo da experiência pioneira da banda Mastruz Com Leite, o Ceará, atualmente, está tomado por um novo formato de forró. Ultimamente uma discussão gerada por Chico Cesar colocando este forró como sendo de plástico repercutiu entre músicos em todo o nordeste. Qual a sua avaliação deste momento do forró cearense?
FAUSTO NILO- Sempre teve o sucesso que é esquecido no outro ano, a música de grande consumo, e a (música) mais elaborada. Eu prefiro a diversidade, eu me preocupo muito com a hegemonia ou que uma coisa tem que prevalecer sobre as outras. Se você estuda a história das canções de todo o mundo você observa que as situações de mistura geram uma renovação onde alguém inventa outra coisa e um dia ele também vai reclamar, eu gosto de ver esses acontecimentos como uma maneira histórica. Você tem que ter sua escolha de uma maneira estética, o meu parceiro de forró é o Dominguinhos, eu tenho minha escolha. Essa atividade deu a muitos uma profissão, muitos garotos sobrevivem por causa da música, não precisa ser todo mundo Chico Buarque, essa diferença que é bonito.
RC / O SERTÃO É NOTICIA – Qual a importância da “voz de cristal” de Fenelon Câmara e do cine Skeff na sua formação como arquiteto e músico, eles influenciaram em seu gosto pela música?
FAUSTO NILO- Sem dúvida. Você imagine uma cidadezinha isolada do mundo onde o único meio de transporte era um trem que vivia “no prego”. A nossa diversão e o meio de comunicação da época era o rádio. Nós fomos todos privilegiados, pois a voz de cristal tinha um repertório gigantesco e nos deixou com uma grande bagagem da música popular brasileira. O cinema nos trazia a imagem de outros países e nos alargava o “nosso” horizonte.
RC / O SERTÃO É NOTÍCIA – Qual a sua impressão sobre a cidade de Quixeramobim no que diz respeito à cultura e ao urbanismo?
FAUSTO NILO- Se comparar o Quixeramobim da minha infância ou mesmo com o de algumas décadas atrás as mudanças foram muitas, principalmente depois que as políticas sociais se preocuparam com as cidades pequenas, com as pessoas que vivem em ambientes de pouca oportunidade, devemos reconhecer que isto mudou no Brasil e isso muda a cultura das pessoas. Considerando que o urbanismo são as técnicas para qualificar as cidades, dar conforto aos seus moradores, proteger sua história, Quixeramobim de uma maneira semelhante à maioria das cidades do Ceará tem cuidado com certa dificuldade principalmente da preservação da memória edificada. Já perdemos muitas coisas aqui por desfiguração, destruição, demolição e reformas de edifícios importantes que não poderiam ter sido autorizadas. Não é só tombamento, você tem que ter políticas urbanas onde todos ganhem com isso e o proprietário do prédio antigo tenha orgulho de ser proprietário daquele estabelecimento. Agora o dono do prédio só tem punição, ele nem tem orgulho e nem tem chance financeira por ser dono, ai ele derruba ou aluga para alguém que troca as portas e a historia vai embora. Não estou aqui para culpar os gestores de Quixeramobim por tudo que aconteceu, pois isso acontece em todo o estado, chegará um dia em que a gente vai cuidar disso embora eu comece a pensar que está meio tarde.
RC / O SERTÃO É NOTÍCIA – Em suas letras temos trechos que dizem, “bela é uma cidade velha” e que “Felicidade, é uma cidade pequenina.” Quixeramobim está deixando esta época e entrando nos moldes atuais de uma cidade desenvolvida onde aquela felicidade simples do passado como uma conversa na calçada, um bom dia ao vizinho fica de lado?
FAUSTO NILO- Essa mudança causa uma nostalgia para as pessoas mais maduras como eu, para os jovens não, pois eles receberam a cidade dessa maneira que aqui está, é importante sabermos de onde viemos, onde estamos e para onde vamos. Acho que vocês têm que viverem a cidade de hoje, a minha é outra que já passou, mas temos que proteger a base natural, os riachos, os rios, sem esgotos, que sejam uma água pura e que não tenha desastres devido a construções inadequadas e que a parte histórica não seja prejudicada em sua originalidade, tudo isso é muito bom e devemos se conscientizar disso.
RC / O SERTÃO É NOTÍCIA – Ultimamente varias pessoas estão realizando homenagens a você, em agosto de 2010 Quixeramobim reuniu vários artistas locais e na sua presença lhe prestaram uma grande homenagem, Outra grande homenagem foi feita por artistas como Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Zeca Baleiro, Fernanda Takai, Carlinhos Brow, Caetano Veloso, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Elza Soares, Robertinho de Recife, Ivan Lins, Jorge Vercillo e Fagner, através do CD “Quando Fevereiro Chegar – Uma Lírica de Fausto Nilo”, Como você recebi estas homenagens?
FAUSTO NILO- Essas homenagens são difíceis de dizer se “é” merecida, as pessoas de Quixeramobim tem orgulho de dizer que sou daqui e eu gosto disso, acho que elas têm orgulho de mim. As homenagens vêm com a maturidade e quando a gente vai ficando velhinho e é bom porque você vê seu trabalho reconhecido. Tenho achado bacana essas homenagens recebidas.
Fernando Ivo
Correspondente em Quixeramobim
Bruno Paulino

Jackson Perigoso
Edição
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