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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Discórdia, poder e silêncio na Igreja do Sertão



Entre os religiosos da Diocese de Quixadá, a desavença entre os dois bispos é ignorada publicamente. Nas ruas, o movimento em favor de dom Adélio, o ex da diocese, tem promovido carreatas e distribuído adesivos. Do lado de dom Ângelo, atual coordenador, o silêncio
Abrangendo, além da cidade-sede, os municípios de Quixeramobim, Itatira, Boa Viagem, Madalena, Choró, Itapiúna, Quixeramobim, Capistrano, Ibaretama e Banabuiú, a Diocese de Quixadá surgiu em 1971 cobrindo população estimada em mais de 300 mil habitantes. Nos seus 38 anos de existência, conviveu pacificamente com os mistérios e a beleza da região, cedendo o lugar da fantasia para monumentos naturais como a Pedra da Galinha Choca e as rochas que entornam o Cedro.

Nos últimos meses, porém, esse cenário mudou, ganhou ares de tensão com o conflito envolvendo o atual bispo, Ângelo Pignoli, e o seu antecessor, dom Adélio Tomasin. No centro da discórdia, a disputa permeada por fatos concretos como as decisões tomadas por dom Ângelo mudando os comandos da Rádio Cultura e do Hospital Maternidade Jesus, Maria e José; a troca de religiosos entre as paróquias e a venda de imóveis do patrimônio da diocese. Para além dos fatos concretos, a discórdia tem sido alimentada por versões as mais diversas, envolvendo desde a utilização política da diocese a dívidas acumuladas das instituições pertencentes a ela. Uma das versões aponta que dom Ângelo teria tentado afastar parte da diretoria da Faculdade, que tem hoje como diretor-geral, José Nilson Ferreira Gomes Filho, considerado braço direito de dom Adélio . José Nilson foi candidato a prefeito nas duas últimas eleições, pelo PSDB, e recebeu forte apoio de dom Adélio e da estrutura da Faculdade.
O que tem deixado partidários dos dois lados sem uma explicação clara é porque só agora o atual bispo resolveu tomar essa decisão. Dom Ângelo chegou a Quixadá em março de 2007 em substituição a dom Adélio. Um de seus primeiros decretos foi a nomeação de dom Adélio como chanceler da Faculdade Católica Rainha do Sertão. Na ocasião, declarou que contaria com a ajuda dele porque não tinha muito conhecimento em gestão do tipo. A Faculdade foi montada em 2004 com a maioria dos recursos oriundos da Itália, trazidos pelo ex-bispo.

Auditoria
Nos dois primeiros anos, a relação entre dom Ângelo e dom Adélio se deu de forma tranquila. Em outubro deste ano, no entanto, em conversa reservada, o atual bispo informou ao antecessor que iria fazer uma auditoria na Faculdade, além de querer assumir a administração daquela unidade de ensino. Desde a criação, o diretor geral é José Nilson Ferreira Gomes Filho.

A conversa reservada se tornou pública em novembro quando pessoas ligadas a dom Adélio começaram a propagar a versão de que ele estaria pensando em deixar a cidade em virtude do fato. Desde então, teve início um racha na diocese com leigos próximos ao ex-bispo criando o ``Movimento Fica Dom Adélio e em Defesa da Diocese de Quixadá``, conclamando as pessoas a se colocarem contra as decisões do atual bispo. Carreatas, distribuição de adesivos e reuniões de apoio fizeram o movimento ganhar corpo. Para agitar o clima entre os dois lados, dom Ângelo denunciou que estaria recebendo ameaças de morte. Não disse de quem.

Enquanto partidários de dom Adélio alardeiam a defesa do religioso, ele próprio tem se esquivado de falar a respeito. O mesmo acontece com dom Ângelo, que até agora tem se apoiado em uma carta publicada dia 23 de novembro no site da diocese tentando dar luz às suas decisões. O silêncio dos dois é seguido pelos demais religiosos, que estariam desautorizados a emitir qualquer opinião sobre o assunto.


FRASES

TRECHOS DA CARTA DE DOM ANGELO
...Cheguei à convicção de não ser possível conseguir visão clara e fundamentada da realidade da Faculdade, apenas através de eventuais contatos e relatórios. Precisamos de algo mais amplo``

..é incompreensível e surpreendente a celeuma que imediatamente se criou, o barulho que se fez, usando de falsidades, calúnias ou meias-verdades, querendo jogar a autoridade maior e legítima do Pastor da Diocese contra seus padres, o Bispo emérito e a Faculdade Católica..``

...faço um veemente apelo a que nenhum partido e nenhum político interfiram indevidamente nos assuntos reservados à autoridade diocesana de Quixadá...``

Luiz Henrique Campos
O Povo

Carta tenta explicar a auditoria

O silêncio adotado por dom Angelo Pignoli para se contrapor à ofensiva dos partidários de dom Adélio Tomasin foi quebrado no dia 23 de novembro com uma carta publicada no site da diocese de Quixadá. No texto, ele usa de expressões como ``a Santa Igreja de Deus sempre foi batida por ventos tempestuosos que a sacodem sem jamais destruí-la. Nossa querida Diocese de Quixadá, povo de Deus peregrino neste Sertão Central do Ceará, não escapa a estas vicissitudes``.

Em outro trecho, dom Angelo afirma que manteve um silêncio humilde, mas não deseja que sua continuação seja considerada ``como timidez ou omissão indevida do Bispo diocesano. Por isso, frente às manifestações injuriosas e caluniosas desses dias, faço pública esta mensagem, esperando levar luz e paz às pessoas que amam a verdade``.

Ao procurar explicar os fatos que poderiam ter gerado as desavenças, dom Angelo reconhece em dom Adélio ``grande benfeitor do Sertão Central``, mas faz referência à preocupação com a Faculdade Católica, ``necessitando ter noção mais exata e objetiva da sua situação estática e dinâmica``. Por isso, consta na carta, teria contratado empresa especializada para realizar uma auditoria independente. ``É supérfluo relevar que tal decisão não significa desconfiança de ninguém``. Mais adiante, porém, critica possíveis ações políticas em prol de dom Adélio.

Fonte: Revista Central de Quixadá

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