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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Papo Reto: Quero meu pirulito

Por João Vieira Picanço

Quando eu era pequeno todas as minhas decepções, dores, feridas e tristezas tinham um único bálsamo, remédio e oração: o pirulito do meu pai. Um pirulito oferecido com o carinho do meu velho tinha o poder divino de apaziguar o coração. Até a tristeza da derrota nos joguinhos de bila, bola de gude, para os mais letrados, o pirulito suprimia. Até hoje não sei de onde vinha esse poder mágico: se da minha ingenuidade de criança ou da sabedoria e carinho do meu pai. Mas vou dar crédito ao meu pai. Ele era de um tempo em que o fio do bigode era nota promissória e se morria pela palavra quebrada. Era de um tempo em que se educava os filhos pelo exemplo. Era ao mesmo tempo severo e ameno. Severo na correção dos seus erros e na retidão do caráter e ameno no trato com as pessoas e no oferecimento sublime da guloseima confortante. Adélia Prado no poema A COISA MAIS FINA DO MUNDO escreve:

Minha mãe achava estudo
A coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo
É o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão, deixou tacho no fogão com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
Já meu pai achava coisa fina a honestidade e coisa de luxo a vergonha. E passou essa crença e valores para os filhos. Não sei se o meu querido velho sobreviveria nos dias atuais com a escassez dessas duas: honestidade e vergonha. Todos sabem que participo da política, acredito na política, incentivo a política. Inclusive exerci cargo politico eletivo. Mas sinto-me órfão ultimamente. Aqueles em quem acreditei me trairam e ao povo. Vejo um presidente que tem um assessor de confiança preso com uma mala de propina; vejo uma oposição tão suja e comprometida quanto os gestores atuais; vejo ministros do supremo tribunal federal sem credibilidade pra julgar um roubo de galinhas; um procurador da republica com assessor de confiança defendendo ladrão e bandido. Vejo uma classe política em que a regra é o engôdo e a mentira. Uma tristeza. Chego a invejar Cazuza. Se os seus heróis morreram de overdose, os meus heróis estão morrendo de falta de vergonha e cinismo. Onde buscar esperança? Onde buscar alento? Se todos os dias somos bombardeados e surpreendidos com mais delação de roubalheira e patifaria. E o pior de tudo é inércia e apatia do povo. Assiste a esse filme de terror sentado na platéia se esquecendo que o filme é uma autobiografia e que ainda pode mudar o final.  Zé Geraldo, na música MILHO AOS POMBOS, diz:
"Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça
Dando milho aos pombos"
Vejo que hoje estamos cantando: 
"Tudo isso acontecendo e nós aqui apáticos chupando o dedo."
Aí me dá uma vontade enorme de gritar: - Cadê meu pirulito?

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