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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Papo Reto: Morreu Maria preá

*Por João Vieira Picanço  

Hoje acordo com vontade de protestar, vontade de expressar meu desconforto, meu desalento com meu país e meu povo. Estou cansado. Estou entristecido. Não reconheço mais meu povo e, ás vezes, não me sinto mais como parte dele. Sou de um tempo de protestos, passeatas, gritos de ordem, bandeiras, panfletos e músicas contra nossos opressores na ditadura. Tínhamos nossos heróis e arautos como Caetano, Gonzaguinha, Vandré, Chico, Zé Geraldo etc.


Apesar da repressão íamos as ruas dizer: NÃO CONCORDAMOS. Hoje meu povo está mudo, omisso, apático. Eduardo Alves da Costa no poema "NO CAMINHO, COM MAIAKOVSKI" diz:" ...Na primeira noite eles se aproximam
 e roubam uma flor do nosso jardim.
 E não dizemos nada.
Na segunda noite já não se escondem;
Pisam as flores,
Matam nosso cão
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa
Rouba-nos a luz e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dize nada...

Hoje meu povo já não grita, repulsa, estrebucha. Aceita tudo que lhe impõe inerte. Estamos em outras ditaduras: a do medo, da omissão, do silêncio, do rabo entre as pernas, da inércia, da migalha e das bolsas e auxílios. É patética nossa situação e posição. Se antes tínhamos referências como Brizola, Niemeyer, Ferreira Gullar, Fernando Gabeira, Glauber Rocha, hoje Temos Tiririca e Bolsonaro.

Hoje aceitamos o inaceitável: um prefeito eleito pelo voto popular chamar professores de MARAJÁS, um ministro da saúde chamar médicos de preguiçosos e vagabundos, um presidente cortar receitas de saúde e educação e liberar praticamente a arrecadação da união pra se manter num cargo, tiroteios cotidianos NORMAIS em nossas cidades quando em qualquer lugar do mundo seria terrorismo, presidiários recebendo auxílio reclusão maior que o salário mínimo do trabalhador. E o povo aceitando tudo covardemente. Durmo com a música do Chico na cabeça: "Apesar de você amanhã há de ser outro dia..." E quando acordo é a mesma coisa. Sonho com o dia que meu povo com afinco, determinação, sangue nos olhos, dará o seu estrondoso grito de liberdade: "- A partir de hoje MORREU MARIA PREÁ."

*João Vieira Picanço é advogado, Presidente do Partido Democrático Trabalhista - PDT, ex-parlamentar e milita na política ibaretamense há 19 anos. 

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2 comentários:

Unknown disse...

Disse tudo!

Vinícius disse...

Dr Picanço,

Entendo sua desilusão. Realmente a passividade está reinando. Mas tenho fé que
tudo vai melhorar!

Victor Scott

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